Acho que meu relógio está atrasado. Hoje não é madrugada do dia 9 de julho UHASHUASUHAS /eu disse que ia postar nesse dia xD
Espero que gostem :)
-
A escola continuava quase do mesmo jeito de quando eu estudava lá. Não faz muito tempo, uns três anos. Logo após a morte de Clair.
Ainda tinha a mesma pintura cinza sem graça, os mesmos bancos velhos na porta, e eu ainda tropeçava no mesmo ponto do asfalto mal feito.
Era estranho chegar lá sem a mochila nas costas, os cadernos nas mãos e Clair do meu lado. Dessa vez, eu ficaria somente até ali, naquele portão velho.
-Hey, Charles, bom dia. Você chegou cedo! – Jannet passou do meu lado com o seu carro modelo 2005.
-Bom dia, Jannet. – retribuí com um sorriso no rosto – eu não sabia que horas eu tinha que chegar, e não queria me atrasar.
-Entendo – ela estava agora saindo do carro já estacionado. – Encontrou algum velho amigo?
Estávamos andando, em direção ao portão principal da escola. Olhei ao redor, e não encontrei ninguém.
-Não! Eu não tinha muitos amigos aqui. Andava mais com a Clair. – respondi, e esqueci que ela não sabia quem era a minha irmã.
-Clair era sua amiga? – perguntou
-Minha irmã...
-Ah, você tem outra irmã? Ela ainda estuda aqui?
Pensei se seria bom dizer logo o que acontecera com Clair. Tinha esperanças de que Jannet não fosse me fazer mais perguntas sobre o assunto.
-Ela... A Clair já morreu. – respondi de cabeça baixa.
Esperei pela resposta dela, mas não veio, ao invés disso, uma mulher que vestia um tipo de uniforme aproximou-se de nós. Agradeci mentalmente por ela nos interromper e me livrar de mais um “eu sinto muito pela sua perda, Charles”. Eu já havia me cansado disso.
-Bom dia, D. Jannet. – a mulher agora estava falando diretamente com Jannet, ela tinha um ar superior e, para ela, eu parecia invisível. – Você já organizou seus documentos no cartório? – perguntou.
-Bom dia, Sra. Smith. Sim, já fui ao cartório e fiz tudo o que tinha que fazer. – Jannet respondeu. Nós dois percebemos que, agora, a Sra. Smith estava olhando para mim.
-Muito bem. E, quem é este rapaz? – perguntou Sra. Smith
-Este é Charles. Um amigo meu e ex-aluno da sua escola. Ele gostaria de preencher a vaga de porteiro. Soube que você estava procurando por um.
Sra. Smith estava agora me analisando de ponta a cabeça. Seus olhos eram arregalados e pareciam não dormir a dias. Era difícil ter que encarar seu rosto tão de perto.
-Você já trabalhou antes, garoto? – perguntou
Ela estava falando comigo? Estranhei, pois antes eu nem parecia estar ali entre ela e Jannet. Eu não sei por que, mas me senti nervoso perto da Sra. Smith.
-Ér, mais ou menos. Eu...
-Ele já trabalhou para mim. Tenho certeza de que irá gostar dele, Sra. Smith.
Esse era um momento importante para mim. Não sei o motivo de eu estar tão tenso. Não era uma coisa que eu estivesse esperando há tanto tempo para conseguir. Foi algo repentino, que surgiu ontem. Eu não morreria se não tivesse esse emprego. Mas eu queria tanto estar ali na escola, no meio dos estudantes, dos livros. Para mim, conseguir permanecer em uma escola era um desafio. Era mais um medo que eu tinha que enfrentar e que Clair se sentiria orgulhosa de mim. A cada dia que eu saísse da escola, do meu trabalho, eu teria a mais deslumbrante vista do Sol: o sorriso de Clair em minha mente.
-Ótimo. Pelo menos agora não é um porteiro velho e arrogante. Você pode pegar sua farda amanhã. Hoje você começa com essa roupa que você está mesmo. Só o que você precisa fazer é ficar ali sentado na porta – ela apontara para o grande portão na entrada principal da escola. Ele era de ferro e sua pintura já estava gasta demais - abrindo e fechando o portão para as pessoas passarem. Não deixe as crianças saírem, não saia do seu posto, não fume, não beba, não converse muito com os alunos, pois alguns pais não gostam que seus filhos se relacionem com funcionários, enfim, não faça nada de errado. Você receberá seu salário no dia 5 de cada mês comigo mesma no meu escritório, você é um ex-aluno, não é? Então já deve conhecer a escola. Meu nome é Elizabeth Smith, diretora daqui. Tudo resolvido?
Não sei se eu tinha entendido todas as ordens que ela me deu. E não sei se eu me acostumaria com ordens. É bom que o salário valha à pena e que eu não tenha que cruzar muitas vezes com essa... Elizabeth. Ela fala demais. Deixou-me confuso.
-Sim, sim... Tudo bem.
-Certo! Você pode começar agora, então. Eu vou indo que eu tenho muito que fazer.
Elizabeth saiu rebolando pela minha frente – se é que ela sabe rebolar, ela parecia desconfortável naquele salto alto e eu tinha a impressão de que a qualquer momento ela iria cair – Jannet olhou para mim com um sorriso no canto da boca. Imaginei que ela estivesse rindo do mesmo motivo que eu estava internamente.
-Bom você entendeu não é? – perguntou Jannet – Eu vou pegar alguns livros que eu esqueci no carro e você pode começar seu trabalho, Charles. Amanhã eu lhe apresento a escola, tudo bem?
-Sim, tudo bem. Obrigado, Jannet. Nem sei como lhe agradecer. Muito obrigado – eu realmente, era muito grato a ela por me dar essa oportunidade – eu só não sei se quero conhecer a escola. Ainda não. É... Me trás algumas lembranças que... Eu preferia esquecer.
-Tudo bem, eu entendo. Não precisa agradecer. Você já me retribui com essa sua felicidade contagiante, Charles. Então, bom trabalho.
-Obrigado.
Jannet fez uma cara como quem diz “eu disse que não precisava agradecer” e saiu em direção ao seu carro.
Fui para o portão da escola e sentei-me no banco. Imaginei logo de início que seria preciso um concerto nele, pois ele ficava balançando, quicando de um lado para o outro e o acento já estava desparafusado.
De onde eu estava não era possível ver muito da escola, ainda tinha um longo corredor em direção às salas e tudo o mais. Confesso que tinha uma leve vontade de ir lá, mas, além de eu ter que permanecer no meu posto, não sei se eu estava pronto para isso.
Jannet já havia entrado para dar suas aulas. Ela era professora de História.
Quando eu estudava, essa era a minha matéria favorita. Aquelas “notícias antigas” como meu velho professor costumava brincar ao referir-se à sua matéria, me encantavam e me faziam imaginar milhões de sociedades diferentes ao mesmo tempo. Sempre gostei de aprender sobre novas culturas.
Era apenas o início do dia. Muitos alunos passaram e passam por mim agora. Era gratificante receber um “Bom dia” dos adolescentes, e estranho ouvir um “Bom dia, tio” das crianças.
Perdi a conta de quantos alunos passaram por aquele portão. Vinte, trinta, quarenta... Mil. Não sei. Neste momento, depois de quase uma hora no abre-e-fecha do portão, a entrada de alunos cessou.
Acredito eu, que todos estavam em suas salas. As aulas haviam começado.
Coloquei a mão no bolso à procura do meu caderno. Ele não estava lá. Devo ter esquecido em casa por conta da ansiedade que eu estava hoje cedo. Essa é a primeira vez que isso acontece.
Pensei em desenhar a escola, as pessoas, a farda dos alunos, qualquer coisa pra passar o tempo mais rápido.
Observei, então, que mais um carro estava parado diante de mim. Era um carro comum, popular, mas parecia ser bem conservado.
No momento, alguém estava saindo do banco do carona. Era uma menina. Não me lembro de tê-la visto na cidade. Ela era diferente, bonita demais. Acanhei-me com a sua beleza, pois ela já estava bem à minha frente, rindo.
-Bom dia. Meu nome é Jennyfer, Jennyfer Lee, 1º ano. Eu cheguei tarde demais? – perguntou.
-Sim... Quer dizer... Não... Você... Pode entrar. – por que mesmo eu gaguejei ao falar?
Jennyfer estava rindo de mim.
-Ah, obrigada. – ela disse isso e deu um beijo em meu rosto.
-De nada. – foi só o que eu consegui falar.
Seus cabelos estavam agora batendo em meu rosto, estava virando para entrar na escola. Ela disse 1º ano, não foi? Deve ter a minha idade, ou 15 anos no máximo. Há tempos que eu não me interesso por uma garota. Não tinha muito contato com outras pessoas enquanto eu trabalhava na fazenda, principalmente com garotas bonitas como ela. A última menina que eu gostei, foi a Nichole, na 6ª série, um ano antes de eu sair da escola. Nós brincávamos juntos e eu a defendia. Os outros meninos da turma zoavam com ela, por ela ser gorda e não conseguir ler em voz alta quando a professor pedia. Eu não me importava com isso. Pra mim, Nichole era a menina mais linda, engraçada, inteligente, amiga e interessante do mundo. Mas meu pequeno-grande amor acabou quando ela foi embora ao final do ano. Seu pai fora transferido para trabalhar em outra cidade.
Jennyfer tinha uma beleza única. Uma voz doce, olhos verdes, cabelos ruivos e ela me transmitia uma tranquilidade que nenhuma outra pessoa além de Clair e Valery me transmitiam. Eu sei, foram poucos segundos em sua presença, mas foi o bastante para eu me interessar por ela. Pelo menos por sua beleza.
-
Passaram-se 3 horas, imagino que agora seja o intervalo das aulas. Quarenta minutos de intervalo, se é que não foi mudado. Na minha época, eram os melhores quarenta minutos que eu passava entre aquelas paredes beges claro.
Todos estavam descendo pela escada para irem lanchar. Meus olhos scaneavam o local à procura de Jennyfer. Não encontrei nada. Só o que vi foi um menino, gordo, no chão. Resolvi ajudá-lo.
-Está tudo bem? Você se machucou? – perguntei – pode levantar?
-Sim, estou bem. Largue-me. Eu me levanto sozinho! – o menino respondeu rispidamente.
-Como você quiser.
Ele estava se levantando, parecia ter dificuldades para isso. Seu lanche estava esmagado no chão. Sua farda estava completamente suja. Seus óculos quebrados e seu cabelo bagunçado. Ele não pode ter simplesmente escorregado na escada sozinho.
-Ei você aí! – ouvi alguém me chamando, eu acho – quer que a gente te jogue no chão também, é?
Virei o rosto para ver quem era.
George Walker. Filho de Richard Walker. Meu pai gostaria de estar aqui no meu lugar para dar-lhe uns murros e um recado para seu pai.
Com o meu rosto virado para o dele, pude ouvir risos.
-Charles Parker! Filho do maior perdedor da região. Como vai seu pai? Quer que eu dê algumas moedas para ele comprar mais bebida? – todos agora estavam rindo. O menino que eu tentei ajudar, ainda estava no chão e calado. – Vai dizer que você voltou a estudar? Cansou de trabalhar na terra?
Suas palavras, por mais ofensivas que fossem não me abalavam. Aprendi a lidar com pessoas como ele desde muito cedo.
-Ele está bem, obrigado. E não precisamos do seu dinheiro, Walker. – eu o encarava bem de perto – voltar a estudar? Ainda não. Mas pelo menos eu estudei pra poder voltar um dia, não é? Você continua aqui e... Quando que você pegou em um livro mesmo? – pude ouvir os “uooou” que seus amigos faziam agora.
-Quer dar uma de machão agora, é? Cale sua boca, seu perdedor, ou eu acabo logo com você.
Sua mão estava fechada em um punho. Não era grande coisa. Trabalhando na terra eu ganhei músculos, força, coisa que George não chegava perto. Se ele resolvesse me bater, eu estaria preparado para revidar.
-Ei, meninos! Podem parar. – Jannet encontrava-se no meio de nós dois, afastando-me de George – o que vocês pensam que estão fazendo? E você, Billy, porque está no chão? – Billy levantava-se com a ajuda de Jannet – Isso é uma escola! Não é lugar para brigas.
A ‘gangue’ de George já não estava mais lá. Era incrível como eles o apoiavam nos momentos difíceis.
-Desculpe D. Jannet. – disse George.
-Vá lanchar. O intervalo já está acabando. Vamos, antes que eu o leve para a sala da Sra. Smith. E você, Charles, volte para o portão se não quiser perder o emprego, por favor.
-Portão? – perguntou George, que continuava parado ao nosso lado.
-Você ainda está aqui, Walker? – perguntou D. Jannet
-Parker está trabalhando como porteiro, é isso? Porteiro! – risos – Bem pensado para um perdedor como você!
George percebeu a raiva nos olhos de D. Jannet e correu para longe.
-Desculpe-me, Jannet. Eu só estava tentando ajudar.
-Não tente ajudar, Charles. Faça o que você tem que fazer e pronto. Eu gosto muito de você, mas não costumo desobedecer a regras e nem gosto quando alguém desobedece. Você não pode nunca deixar o portão sozinho, entendido?
-Entendido. – abaixei a cabeça. Jannet subiu a escada e eu caminhei até meu único companheiro da escola: o portão velho.
Pude ver que Jennyfer estava ali perto, antes de Jannet sair, nos observando.
Será que ela viu a confusão toda? Será que eu estava bonito? Será que ela gostou do que eu falei? E se ela tiver ouvido sobre o meu pai?
Era estranho voltar a ter essas incertezas de adolescente. Seria mais difícil ainda ter que me acostumar com elas novamente.
O intervalo já estava acabando. Mais uma vez, estudantes e mais estudantes passavam pelos meus olhos. Virei a cara para não ter que encarar George novamente.
Ser porteiro é uma das coisas mais chatas que existem. E eu demorei pra perceber isso. Não aguento permanecer aqui sentado sem fazer nada. No momento, eu estaria em casa, fazendo o que eu sempre fiz, observando a natureza e desenhando. Nem um relógio eu tinha para poder saber quanto tempo faltava para eu ir embora.
No tédio que eu estava, meu pensamento foi longe.
Imaginei o que minha mãe estava fazendo em casa. Espero que seja qualquer outra coisa diferente de infernizar meu pai sobre devolver Valery, ou trancar-se em seu quarto. Era um mistério para mim e para Edgar – se bem que ele nem se importava com Marie – o que mamãe fazia lá dentro. Rezar já está muito clichê para mim. Ela não pode também viver rezando. Costurar? Não! O último barulho da máquina de costura que ecoou em nossa casa, foi quando Clair reparou alguma coisa em sua roupa antes de sair pela última vez em sua vida.
Marie simplesmente não falava mais com outras pessoas, não sorria mais, não ouvia música no rádio enquanto cozinhava. Ela tornou-se uma pessoa seca, e esforçava-se para esconder isso.
Edgar devia estar cuidando de Valery. O médico foi lá novamente hoje de manhã, antes de eu vir para cá. Ele ficou surpreso com a rapidez que a febre dela passou e com o comportamento dela. Disse ser um comportamento bastante avançado para uma criança de sete ou oito meses. Valery já até arriscava dar alguns longos passos sozinha e falar coisas além de incompreensíveis barulhos de bebês.
Ah, como eu queria chegar logo em casa e abraçá-la. Com ela, eu esquecia todos os problemas, mesmo que ela fosse um desses.
-
O tempo passou. Já estava no final do dia e eu finalmente terminaria meu primeiro, e intediante, dia de emprego. Jannet disse que a escola só funcionava de manhã. Haviam poucas turmas de tarde e eu não precisaria trabalhar nesse turno, somente quando eu fosse chamado para isso.
Tive que esperar até o último aluno e o último professor sair da escola para eu ir embora também.
Tranquei o portão com a chave que estava no trinco desde o início. Vi outros funcionários trancando portas e janelas lá dentro da escola. Espero que eles tenham outra forma de saída, porque eu já estava indo embora.
De início eu estava sozinho, até que ouvi a voz doce me chamando.
-Espere-me, por favor.
Jennyfer andava logo atrás de mim com seus cadernos nos braços. Ela estava mais bonita ainda agora que éramos só nós dois na rua. Minha atenção estava totalmente em seu rosto. Não tive que esperar muito até que ela chegasse do meu lado.
-Meu pai me ligou dizendo que não poderia me pegar, terei que ir de ônibus. Ainda bem que te encontrei. Eu posso andar com você, não posso? – Jennyfer tinha uma carinha de coitada estampada em seu rosto. Mesmo que eu quisesse, era impossível dizer não.
-Claro que pode! – respondi.
-Obrigada. – disse Jennyfer
“Pra você, eu faço tudo! Não precisa agradecer.” Pensei e, como sempre, muito exagerado.
Calado. Sem falar nenhuma palavra. Esse era o meu estado no exato momento.
-Seu nome é Charles, certo? – perguntou Jennyfer, quebrando o silêncio.
-Sim. E o seu? – “Que pergunta idiota, Charles! Ela vai pensar que você não prestou atenção nela hoje de manhã” pensei novamente comigo mesmo.
-Jennyfer! – risos – Eu lhe disse hoje de manhã! Você não se lembra?
Idiota. Eu sou um completo idiota!
-Ah, sim. Eu lembro – coloquei uma mão atrás da cabeça e dei um sorriso meio forçado – Jennyfer Lee, 1º ano! – completei.
-Isso mesmo!
E agora? O que eu falo? – eu estava desesperado e não conseguia pensar em nada para falar.
-Você estuda lá desde criança? – “Ãn? Eu perguntei mesmo isso? Idiota, idiota, idiota”.
-Não, entrei esse ano. Eu não sou daqui. Sou de Franklin, Tennessee. Conhece?
-Não, eu não sou muito de viajar.
-Ah!
Jennyfer e eu estávamos completamente sem assunto. Encontrei-me de cabeça baixa chutando uma pedra do chão.
-A parada de ônibus é longe daqui? – mais uma vez, Jennyfer estava lutando contra o silêncio entre nós dois, ou simplesmente sendo educada com um estranho. Prefiro a primeira opção.
-Estamos quase chegando. – respondi.
-Ainda bem, não aguento mais andar com esse tênis, já entra água nele quando eu piso em uma poça.
Olhei para os seus pés, mas, antes disso, vi seu corpo por inteiro. Ela era realmente linda. Seus cabelos ruivos passavam um pouco dos ombros, sua altura era quase igual à minha, não passava de 1, 60, ela não era gorda nem magra. Normal. Mas eu não me importava com isso. Vestia-se de forma diferente das outras meninas. Não usava maquiagem muito forte, roupas femininas demais, brincos grandes, etc. Eu gosto de meninas assim. Além de tudo isso, é claro que não pude deixar de notar como seu corpo é bonito.
-Haha – eu ri – os meus também já estão assim – na verdade, eu só me lembro deles sendo assim. – Chegamos.
-Ah, finalmente.
Sentamos no banco do ponto de ônibus. Um homem estava sentado lá sozinho. Ele parecia ser normal, exceto pelas suas roupas sujas. O ônibus de Jennyfer era diferente do meu, por isso, espero que os nossos cheguem ao mesmo tempo ou o dela chegue primeiro, pois aquela área era perigosa e eu não queria deixá-la sozinha.
-Vi a sua briga, discussão, que seja, com o George hoje no intervalo.
-Ah, você viu? Eu fui ridículo. – tentei parecer envergonhado.
-Que nada. Você falou o que muitos não teriam coragem de dizer a ele. Você foi corajoso. Gosto de meninos assim.
Seria isso um sinal para mim? Uma chance? Como eu devo interpretar isso? Que confusão.
-George zoa com todos naquela escola, mas nunca olha para si mesmo. Idiota. Eu o odeio.
Perguntei-me o porquê dela odiá-lo! Será que ele já fez algo ruim a ela?
-Ele te fez alguma coisa? Posso te defender, se você quiser. – eu sempre muito afobado, querendo me intrometer em tudo.
-Sim, eu tenho alguns problemas e ele... Não interessa agora. Obrigada, Charles, mas não precisa. – ela sorriu e seu sorriso era lindo – vamos mudar de assunto?
Eu espero que ela comece um novo assunto, porque se depender de mim vai sair mais alguma besteira da minha boca.
-Sabe, até que você é legal! Gostei de você. – disse Jennyfer
Senti uma felicidade me invadindo por completo.
-Ah... Obrigado... Você também... Eu gostei de você!
Jennyfer ria alto agora.
-Está com vergonha? – risos – Desculpe. Não precisa ficar com vergonha de mim.
Dei um sorriso amarelo. Sem graça.
Jennyfer então se levantou do banco para ver se o ônibus estava chegando.
-Ainda vai demorar. – disse ela
-Alguns motoristas de ônibus estão em greve. – o homem que estava sentado na parada antes da gente chegar, manifestou-se pela primeira vez desde que sentamos lá.
Automaticamente, nós dois viramos o rosto para ele.
Ele tinha uma longa barba, olheiras profundas e fedia à cerveja. Suas roupas, como eu já disse, eram velhas, rasgadas e sujas. Ele estava descalço e com uma garrafa vazia na mão.
-Ah, eu não sabia disso. – disse Jennyfer – vou ver se tenho dinheiro pra um táxi então. Não quero chegar muito tarde em casa.
O homem pareceu interessar-se mais em Jennyfer quando ela colocou a mão na bolsa e abriu sua carteira. Seus olhos estavam totalmente na carteira. No dinheiro.
-Moça, você pode me dar um dinheiro? É que ontem eu fui pra alguma festa, não sei... E acordei aqui. E como você pode ver, estou acabado. Sem nada.
-Ah, claro! Ér... Vou ver se eu tenho dinheiro sobrando.
-Obrigado.
Eu não tinha dinheiro no bolso, somente o suficiente para pagar o ônibus. Eu rezava para que ele não me pedisse dinheiro também, não queria parecer um pobre na frente de Jennyfer.
-Ah, moço... Eu não tenho. Só o dinheiro pra eu pegar um táxi. Desculpa.
-Tudo bem, não tem problema.
O celular de Jennyfer tocou e ela o atendeu. Era seu pai.
-Alô? Pai, eu ainda estou aqui na parada de ônibus. Não, eu não estou sozinha. Eu não vou demorar mais, vou pegar um táxi. Sim, eu lhe ligo quando chegar em casa. Beijos.
-Esse seu celular é muito bonito. – disse o homem.
Jennyfer e eu achamos isso muito estranho. Ela ficou meio sem jeito.
-Obrigada...
-Eu poderia pagar um táxi pra mim também com ele, sabia? Você não quer me dar?
Isso já foi demais. Aquele cara queria roubar o celular dela. Eu tinha que fazer alguma coisa.
-Não, ela não quer. – levantei-me, cheguei perto de Jennyfer e falei baixo em seu ouvido – vamos sair daqui. Agora.
Ela entendeu e nós começamos a dar os primeiros passos a caminho do outro lado da rua.
-Calma! Vocês já estão indo embora? Mas por quê? Esperem-me!
O homem levantou-se e alguma coisa caiu de seu bolso. Um saco plástico transparente. Tinha algum tipo de pó branco dentro dele, mas que agora estava esparramado no chão.
A raiva era nítida em seu rosto.
-Viram o que vocês fizeram? Agora vocês vão ter que pagar por isso, meus amigos.
É claro! Ele era John, um antigo dono de um dos melhores bares daqui. Há uns tempos ele começou a usar drogas e viciou-se. Desde então, ele vive nas ruas bebendo e se drogando. Quando precisa, rouba para poder comprar seu vício.
-Vamos embora! – falei para Jennyfer
-Não tão cedo! – John puxou um canivete do bolso e nos ameaçou com ele – Vamos, passem tudo que vocês tiverem.
Ficamos parados perplexos. Eu nunca tinha sido assaltado e sempre tive medo que isso acontecesse comigo. Eu tinha que mostrar coragem para Jennyfer, mas eu não sabia mesmo o que fazer.
-Vocês me ouviram. Vamos, eu quero tudo! E nada de gracinhas ou alguém vai sair machucado daqui.
Como eu fui burro por não ter percebido logo de início quem era aquele cara. Por isso, estávamos nessa enrascada agora.
Jennyfer não demonstrava estar com medo. Parecia até que estava mais calma do que eu. Ela começou a tirar o tênis, imaginei que ela fosse mesmo querer se livrar logo dele, colocar os brincos, pulseiras, cordão, tudo dentro da sua bolsa para entregar a John.
Nesse pouco tempo, observei que a perna de John estava manca e que ele era feio e magro. Sua aparência era de alguém doente. Imagino que são esses os efeitos das drogas, além de muitos outros.
Eu poderia facilmente segurá-lo por trás e pegar o canivete da sua mão. Ele não poderia lutar contra mim. Eu sou nitidamente mais forte.
-Você também. Dê-me seu tênis, sua roupa e dinheiro. E se tiver celular, também quero. E é bom que você seja rápido.
Abaixei-me para desamarrar o cadarço do tênis. Fui devagar, olhando para sua perna manca, para eu saber aonde eu deveria chutar. Jennyfer esticara seu braço e entregara sua bolsa a ele que parecia uma criança recebendo doces enquanto olhava tudo de valor que tinha lá dentro. Essa era a hora certa.
Agachei-me e dei uma rasteira no ponto que eu acreditava ser o mais fraco de sua perna. Ele perdeu o equilíbrio e caiu deixando o canivete escapar de sua mão. Peguei o canivete e o joguei para longe. Não gosto de usar nada em uma briga além das minhas próprias mãos.
-O que você fez? – Jennyfer perguntou
-Salvei nossas coisas, ué.
John estava no chão. Sem seu canivete, ele não era nada. Não estava lúcido e era uma pessoa fraca por conta das drogas e do álcool.
-Pegue sua bolsa e seu tênis. Vamos embora daqui. – falei para Jennyfer.
Saímos correndo e rindo.
-Você é louco, Charles! Obrigada!
-Não precisa agradecer! E seus tênis? Você deixou lá! Quer que eu volte pra pegar?
-Não! Deixa lá pro nosso amigo. Eu não gostava mais deles mesmo.
Nós dois riamos e corríamos sem parar. Era tão bom.
Chegamos a um ponto de táxi e Jennyfer abriu sua bolsa para pegar a carteira.
-Devo a você, hein! – disse ela enquanto pegava o dinheiro.
-Que nada!
-Então, te vejo amanhã na escola? – perguntou Jennyfer
-Claro! É só você não chegar atrasada de novo.
-Engraçado.
Beijamos um o rosto do outro e nos despedimos. Ela entrou no táxi e saiu.
Olhei para a rua e para as pessoas. Perto delas, eu era um rei. Era a pessoa mais feliz dentre todas. Dois beijos em um dia. O que mais eu poderia pedir?
-
Cheguei em casa e vi Edgar com Valery sentados na porta.
-Como foi no trabalho?
-Melhor impossível – eu estava me referindo à Jennyfer, mas tudo bem. Eu não iria explicar agora o quão intediante foi ficar sentado naquele portão.
-Que bom, meu filho!
Peguei Valery no colo e brinquei um pouco com ela. Era impressionante como ela estava crescendo. Em apenas dois dias, ela já parecia bem maior desde o dia em que nós a encontramos. Deve ser loucura da minha cabeça. Isso é impossível.
Entrei em casa, passei pela sala e vi Marie assistindo televisão. Dei bom dia a ela e fui para o meu quarto.
Estava louco para desenhar.
Meu caderno estava bem em cima da minha cama, peguei-o e comecei a passar todas as imagens que eu tinha de Jennyfer em minha memória. Queria poder registrar isso e ver sempre que eu sentir falta de seu lindo rosto. Passei o dia e a tarde inteira no meu quarto desenhando.
Clair diria que eu estava apaixonado. E talvez eu esteja mesmo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário