sexta-feira, 9 de julho de 2010

Valery - Chapter 2 [EDITADO]

Juro que é a última vez que eu edito o 2º capítulo AUSAUHSAS :)
Hoje de madrugada, eu posto o 3º capítulo *-*
Espero que gostem :)

CHARLES


-Vamos Charles, você consegue. – a voz mais doce do mundo tentava me encorajar.

-Não, eu tenho medo. – respondi.

-Mas você tem que superar esse medo, Charles! Vamos, eu estou aqui com você!

-Você promete que não vai me soltar? – perguntei.

-Prometo! Confie em mim, dê-me sua mão. – falando isso, ela esticou seu braço para que eu o pegasse.

Apertei a sua mão firme, e me esforcei para subir a árvore. Eu não acreditava que tinha chegado até ali. Estávamos quase no topo, eu podia sentir os galhos batendo em meu rosto. Minha vontade era de chorar e sair correndo, mas ela me acalmava e me fazia acreditar que eu conseguiria. Eu não queria decepcioná-la.

-Eu disse que você conseguiria Charles. – ela estava feliz agora.

-Consegui, porque você me ajudou.

-Não, Charles. Você fez isso sozinho. Você superou seu medo sozinho, eu não te ajudei nisso.

-É claro que você me ajudou. Você me deu sua mão e...

-Isso não é nada perto do que você fez. Olha, está vendo o Sol ali? – ela apontou para o céu bem longe, mas que parecia tão perto dali de cima. Ele era grande e de um laranja que me encantava. - É lindo, não é?

-Sim

-Então, toda vez que você estiver com medo de alguma coisa, lembre disso. Lembre dessa vista linda e pense nela como uma recompensa caso você tenha coragem. Você pode tudo, Charles, não importa o quão alto seja o seu problema.

Eu a abracei. Não conseguia pensar em mais nada pra dizer. Foi a forma que eu encontrei para lhe agradecer. As lágrimas invadiam meus olhos e minha barriga estava gelada. Aquele era o momento mais feliz da minha vida. Nunca queria esquecê-lo. Queria poder parar o tempo e ficar ali abraçado com ela e sentindo o calor de sua respiração, o carinho de suas mãos em meus cabelos. Parei por um segundo e deixei as palavras saírem como um soluço pela minha garganta.

-Eu te amo, Clair!

-Eu te amo mais, meu irmão.

-

Essa era a mais forte lembrança que eu tinha de Clair quando ainda era viva. Éramos pequenos, e ela sempre cuidou de mim, pois era dois anos mais velha. Ela me encorajava a fazer coisas que eu achava impossíveis ou que me traziam medo. Todo dia, quando eu acordo, olho para a janela e vejo o nascer do Sol. Fico lembrando dela, de como era bom tê-la comigo.

Quando eu quero um lugar pra ficar sozinho e me sentir em paz, procuro esta mesma árvore. Nós sempre subíamos nela para nos esconder de nossos pais ou admirar o Sol bem de cima da árvore.

Esse era um momento em que eu correra para a árvore. Precisava fugir da confusão que estava em minha casa, precisava pensar em tudo que estava acontecendo, na criança, no meu pai. Mas pensar sozinho. Fiquei ali na árvore. A chuva parara, e Marie deve ter desistido de convencer Edgar a devolver a criança, porque ela não mais socava a porta.

Minha cabeça parecia que ia explodir. Eu podia sentir as lágrimas presas em meus olhos e o zunido em meu ouvido causado pelo forte som dos trovões da chuva de hoje cedo.

Como meu pai encontrara aquela criança? – era só isso que eu conseguia pensar.

Nós estávamos discutindo do lado de fora de nossa casa. Uma forte chuva caía sobre nossas cabeças. Papai estava, mais uma vez, bêbado e, por isso, estava fora de si. Tanto que, quando ele viu o raio atingindo a floresta, pensou que fosse algum sinal... De Deus – como se isso fosse uma coisa supernormal - e correu em sua direção.

É impossível uma criança sobreviver sozinha em uma floresta com aquela chuva e aquele fogo que se iniciava.

Eu queria descobrir como ela estava ali, mas não tinha tempo para isso.

Sua semelhança com Clair me incomodava me deixava perturbado.

Voltei para casa. Marie havia saído. Edgar continuava trancado no quarto.

Deitei-me no sofá e pensei em dormir, mas Edgar gritou meu nome.

-Charles! Venha aqui! – ele me chamou

-Já estou indo, pai! – respondi.

A porta do quarto não estava mais trancada. Abri e vi Edgar deitado do lado da criança em minha cama. Ela brincava com os dedos dele, e ele sorria maravilhado.

Há tempos que eu não via meu pai feliz assim.

-Você sabe cuidar de crianças? – ele me perguntou, ainda com os olhos no bebê.

-Acho que sim. Por quê?

-Preciso sair. Tenho que comprar alguma coisa para ela comer e chamar um médico. Ela está ardendo em febre. Você acha que pode ficar aqui com ela enquanto isso?

Desde que Clair morrera, Edgar nunca mais fora cuidadoso comigo ou até consigo mesmo. Era estranho e bom ao mesmo tempo vê-lo se importando com a vida de alguém.

-Sim, eu posso! –respondi

-Tudo bem. Confio em você meu filho! – ele me chamara de filho. Só eu sei o quanto senti falta disso. – Não deixe que sua mãe chegue perto dela. Tenho que pensar no que irei fazer antes que ela tente devolver a sua irmã.

Minha irmã. Aquela criança que agora estava em meu colo, sorrindo para mim, era minha irmã. Definitivamente, meu pai estava decidido em ficar com ela.

Ele estava saindo, quando o chamei novamente.

-Pai!

-Sim?

-Você... Já... Pensou... No nome dela?

Não sei por que eu gaguejei. Eu só não queria demonstrar tanto interesse, tinha medo que meu pai se empolgasse mais ainda.

-Valery! Sim, esse vai ser seu nome. Valery!

Nunca tinha ouvido esse nome antes. É bonito, e ela parecia gostar quando falávamos seu novo nome. Franzi a testa. Imaginei que ele fosse chamá-la de Clair também.

Percebendo a confusão em meu rosto, ele continuou.

-Achei melhor não chamá-la de Clair.

Entendi o que ele quis dizer, e achei melhor não prolongar o assunto.

-Certo. Vá logo fazer o que o senhor tem que fazer que ficarei aqui com Valery.

Dizer esse nome soava... Bem.

Edgar saiu e agora estávamos somente eu e Valery.

Toda vez que eu a olhava, lembrava da minha irmã. Lembrava de quando éramos pequenos e brincávamos, conversávamos e guardávamos segredos. Doía-me no coração pensar que nunca mais vou tê-la novamente.

Marie voltou a casa e parou para me olhar segurando Valery.

-O que você está fazendo com essa criança? – perguntou.

-Papai saiu e pediu que eu cuidasse dela. – respondi

-Seu pai está louco. Esta criança não pode continuar em nossa casa. Mais cedo ou mais tarde sua família vai aparecer para pegá-la.

Eu concordava com o que ela dizia, mas, de alguma forma, o brilho nos olhos de Edgar me fizeram acreditar que Valery poderia trazer um pouco da felicidade que Clair sempre trouxe para nossa casa e, então, resolvi ser contra.

-A família dela agora é aqui conosco. – demonstrei segurança naquilo que eu dizia. Marie amedrontou-se com isso.

-Vocês estão loucos. – ela resmungou e saiu.

Mais tarde, Edgar chegou com um médico e sacolas de lojas de crianças. O médico a analisou e passou alguns remédios. Papai exigiu que ele fizesse o que fosse necessário para deixar Valery bem. Novamente, fiquei sozinho no quarto com Valery. Meu pai estava agora se despedindo do médico e arrumando as compras que ele fizera. Mamãe preferia ficar longe da menina, pois sabia que Edgar estava louco e ela tinha medo do que ele podia fazer, por isso mantinha-se em seu quarto. Por um segundo, esqueci de todas as dúvidas que eu tinha sobre aquele pequeno ser em meus braços. Ela tinha algum feitiço, alguma coisa que atuava sobre mim e me fazia amá-la. Comecei a admitir pra mim mesmo que ela era a minha irmã.

-Você é minha irmã. – eu disse a ela com um enorme sorriso no rosto. – Minha irmãzinha. – parei um pouco. Minha garganta estava presa. Minha voz saía fraca e eu estava soluçando em lágrimas – Sei que você não é a Clair e sei que não é mesmo minha irmã de sangue. E não me importa mais de onde você veio, ou quem são seus verdadeiros pais. Eu cuidarei de você. E estarei do seu lado sempre que você precisar. Serei seu irmão, seu amigo. Eu prometo... Eu prometo que nada... Nada de mal vai acontecer a você, Valery! – beijei a sua testa, e acho que ela entendeu o que eu havia dito, porque seus olhos estavam brilhando e seus pequenos dedos abraçaram a ponta do meu dedo em demonstração de carinho. Começara ali um sentimento novo dentro de mim.

Eu tinha uma nova irmã e eu faria tudo para que dessa vez desse certo.

-

-Como está a valery? – Edgar perguntara para mim, que ainda estava segurando-a.

-Está melhor – respondi – Sua febre já passou.

-Ótimo.

-O que o médico disse? – perguntei

-Nada demais. Ela ficará bem, teve sorte de ser encontrada por nós e viva. Ele acredita que ela tenha mais ou menos sete meses. Ela já é bem grandinha, não acha?

-Sim. Eu já imaginara isso. – Valery não parecia exatamente uma criança normal para sua idade. Ela era muito inteligente, e grande. - E o que são essas coisas? – apontei para as sacolas em cima da mesa

-Ah, sim. Você já as viu. Hm, são coisas que eu comprei para ela. Afinal, não posso deixá-la sem roupas novas, brinquedos e essas coisas de criança.

Ele tinha razão. Nós encontramos Valery usando somente uma toalha dourada e que estava suja por conta da chuva. De alguma forma, ela cheirava a cinzas. Eu a havia guardado em meu armário. A achei diferente, bonita, interessante. É a única coisa que temos do dia em que encontramos Valery. Foi bom eu tê-la guardado. Meu pai nem percebera.

Enquanto falava sobre as compras, ele tirava as coisas das sacolas e ia me mostrando. Ele estava tão feliz, mas eu ainda perguntava-me aonde ele tinha arranjado dinheiro para tudo isso. Nós não éramos mais aquela família Parker que esbanjava dinheiro por aí.

-Pai... – eu já ia perguntar como ele pagara por tudo isso, mas ele me interrompeu.

-Não, Charles! Agora não. Sei o que você vai falar. Está tudo bem, okay? Eu sei o que eu faço.

Simplesmente abaixei a cabeça. Não queria mais um problema na minha cabeça agora. Espero que ele não tenha se envolvido em problemas também.

-Aonde ela vai dormir? – perguntei

-Ainda não pude comprar um berço para ela. Ela pode dormir na sua cama, você dorme no sofá.

É, essa idéia não me parecia muito boa, mas eu a aceitaria.

-Vamos dormir. Amanhã nós vamos providenciar os documentos de Valery. Quero tudo certinho para a minha filha.

-Pai, calma! Não podemos nos apressar assim. E se os pais dela voltarem? – eu não me preocupava mais em saber quem eram seus pais ou coisa do tipo, mas eu não podia descartar a possibilidade de que ela poderia ir embora a qualquer momento. Eu tinha que manter os pés no chão, diferente do meu pai que andava com a cabeça nas nuvens.

-Eles não vão voltar. Ela é minha.

Falando isso, ele pegou Valery e a acomodou em minha cama e colocou algumas coisas ao redor dela, como uma barreira, impedindo que ela caísse. Saí imediatamente do quarto. Olhei para o sofá e a TV ligada. A última vez que eu dormi ali, Clair ainda estava viva.

-Assassinatos, enchentes, política. – repeti os principais temas das manchetes do jornal que estavam passando na tv. – será que vai ser sempre a mesma coisa? – mudei de canal. Estava passando a apresentação de alguma banda ao vivo. Não sei qual era, mas era boa.

-

Acordei em um pulo. Pensei que estivesse atrasado. Não queria ter que ouvir minha mãe reclamando mais uma vez que eu tinha acordado tarde.

Comecei com a minha rotina. Calça velha, botas, camisa suja e meu macacão surrado por cima.

-Você já está pronto? – fui surpreendido pelo meu pai. Ele estava todo arrumado. O cabelo penteado, a barba feita. Ele até estava vestindo uma camisa nova. Mas, pronto pra quê?

-Ãn? – perguntei

-Nós vamos ao cartório, esqueceu? Arrume-se rápido.

Eu tinha esquecido completamente disso. Na verdade, não me lembro de como eu dormi. Lembro que tinha uma banda... Uma música e...

-Já estou indo.

Arruimei-me e, em alguns minutos, eu já estava entrando no carro com papai e Valery. Era uma caminhonete velha. Eu mal podia entrar nela, porque a porta estava presa ao carro. Tinha que fazer força para que abrisse. Os bancos já não pareciam exatamente bancos. Eles estavam rasgados e sujos. Totalmente deformados. O som era um modelo bem antigo, ainda tinha entrada para toca-fitas. Não sei como aquele monte de metal, como eu costumava chamá-lo, continuava funcionando.

-Não vamos avisar a mamãe que estamos saindo? – perguntei, já dentro do carro.

-Não! Deixe-a enlouquecer mais um pouco.

Tentei esconder, mas não consegui. Eu ri do que Edgar falou. Ele percebeu e respondeu com uma risada alta.

Liguei o som. A música que estava tocando, me parecia familiar.

Sim, era a música de ontem à noite, na TV. Lembrei dela, pois uma frase me chamou a atenção. “It’s not faith if you use your eyes” É como se a cantora da banda soubesse que eu estava precisando de uma mensagem como essa.

A música acabou e eu não soube de quem era. A rádio não anuncionou o nome da banda. Imaginei que não fosse um single, ou coisa do tipo. Deve ter sido algo aleatório que tocara na rádio.

Tive que me contentar com o country local.

Edgar estava concentrado enquanto dirigia, mas mesmo assim começou a conversar comigo.

-Charles, quando chegarmos lá, você procura não chamar muita a atenção das pessoas. Você sabe como essa região que nós moramos é pequena e as pessoas gostam de fofocar. Não quero ninguém falando da minha filha.

Concordei imediatamente, e aproximei minha mão do rádio, tentando aumentá-lo novamente, Edgar tinha abaixado o volume para falar comigo.

Ele me impediu disso e continuou falando.

-Você se lembra do Phil? Meu amigo, ele foi a nossa casa quando... Quando a Clair...

-Sim, eu lembro! – achei melhor responder logo. Era difícil para ele ter que falar desse assunto.

-Então, você se lembra em que ele trabalha? – Edgar não olhava para mim, ele simplestemente falava como se já soubesse a resposta.

-Acho que sim... Alguma coisa no cartório, não é?

-É, e é nesse mesmo cartório em que estamos indo.

Por que ele estava me falando sobre esse seu... Amigo? Eu nem lembrava direito dele. Na verdade, meu pai não tinha muitos amigos, a maioria eram interesseiros, e, os que ele tinha, perdera depois que ele começou a beber.

-Andei pensando no que você me disse ontem. Sei que vai ser difícil ficar com a Valery, por isso terei que tomar algumas atitudes.

Pronto! Eu já sabia o que ele iria fazer... Ele vai...

-Eu vou pagar para esse meu amigo me dar os documentos necessários para que eu tenha a guarda dela.

Era exatamente isso que eu imaginava. Deixei que ele continuasse.

-Quero que guarde esse segredo. Ninguém pode saber principalmente Marie.

-Tudo bem pai, eu manterei segredo. Só preciso que você me garanta uma coisa.

-Qualquer coisa, Charles.

-De onde você está tirando todo esse dinheiro?

Ele ficou nervoso. Se antes ele não olhava em meu rosto, agora menos ainda. Esperei, até que ele me respondesse.

-Pai?

-Eu... Eu consegui. Não importa como, está bem? Está tudo sobre controle.

Alguma coisa me fazia querer acreditar nele, mas sempre desconfiando. Meu pai nunca me deu motivos para desconfiar dele, ele sempre foi muito honesto, mesmo agora que é o maior bêbado da cidade.

-Eu vou confiar em você, pai! Mas... Por favor, não se meta em mais um problema.

-Tudo bem. Obrigado, filho! Eu sabia que podia contar com você! – ele afagou meus cabelos e continuou falando – você vai ver como vai ser bom termos mais uma pessoa na família. Eu lhe garanto.

Concordei com um sorriso e aumentei a música novamente. No fundo, eu tinha medo das conseqüências das ações do meu pai, mas eu continuaria com ele, é muito bom tê-lo novamente.

-

Depois de alguns minutos na estrada, chegamos ao cartório. Era um antigo prédio do governo. Antes era uma lanchonete, ou coisa do tipo, não sei. Ele ficava no meio de uma feira, não era muito adequado um cartório ali, no meio daquela bagunça. Mas o povo não parecia se importar. Ele era o único que tinha ali por perto e até que era grande para o número de pessoas da região. A placa com a palavra “CARTÓRIO” escrita em letras grandes, chamava a atenção de todos que a viam.

-Saia do carro e pegue a sua irmã. Eu vou na frente, tentar falar com o Phil.

Suspirei como quem desaprova o que ele estava prestes a fazer, mas acho que ele não viu. Valery estava dormindo e, quando eu a peguei no meu colo, continuou assim. Não sei como aquela barulheira toda e aquele odor horrível não a acordavam. Eu estaria, no mínimo, chorando bem alto. Se fosse criança, é claro.

Entrei no cartório. A fila estava enorme. Parecia que todos tinham ido lá hoje. Edgar estava logo no começo da fila. Fui até lá.

-Obrigado, Phil. Eu sabia que você me ajudaria.

Papai estava falando com o amigo dele, e entregando a ele um maço de dinheiro. Estranhei que as outras pessoas não tenham visto.

-Pai...

-Ah sim, Charles... Está aqui, Phil. Esta é a Valery. Linda, não?

-Sim, sim. Muito linda. – Phil imitou uma voz engraçada e mexeu nos cachinhos de Valery em meu colo.

-Eu preciso ficar aqui com ela? – perguntei.

-Não. Já está tudo resolvido. O Phil aqui vai conseguir tudo que eu preciso, não é? – meu pai parecia um... Criminoso... Ele tinha... Malícia em sua voz. No final das contas, agora, ele não passava de um criminoso mesmo.

-Você pode se sentar ali, garoto! – Phil apontou pra mim um banco no final da fila.

-Obrigado.

O banco estava um pouco longe. As pessoas na fila me encaravam enquanto eu andava em direção a ele. Não me importava muito. Sabia que não estavam olhando para mim, e sim para o anjo em meus braços. Segui andando até chegar ao meu destino.

-Você vai sentar aqui? – uma vez feminina aparecera do nada.

-É eu iria, mas... Você pode se sentar, sem problemas. – respondi imediatamente sem nem olhar quem era.

-Obrigada.

Agora, era inevitável não olhar quem era. Dona...

-Charles! Eu não tinha visto que era você. Como você está? – Dona Jannet perguntara.

Fiquei calado. Olhar para ela me lembrava da escola.

-Esqueci, você não é de falar muito. Quem é esta menina linda? – D. Jannet falava agora com a atenção em Valery.

-É minha irmã – respondi

-E ela tem nome? – perguntou D. Jannet

-Valery!

-Hm... Disciplina, lealdade...

-O quê?

-Não nada... Eu só estava pensando no significado do nome dela... É um ótimo nome.

-Meu pai quem escolheu.

-Ele está aqui com você?

-Sim nós... Ér... Viemos renovar a carteira de identidade dele. Ele usa a mesma desde os 20 anos, por aí – menti, tentando não chamar a atenção para Valery, como meu pai havia me dito. – E você? – perguntei, tentando mudar o rumo da conversa.

-Bem, eu acabei de chegar aqui na cidade, você sabe. Preciso organizar alguns documentos. – ela me analisava de ponta a cabeça e continuava falando – Sabe Charles, eu gostei muito de você.

Estranhei isso. Eu nem a conhecia direito e ela já gostava de mim. Pensei em ser educado e dizer o mesmo.

-Obrigado. Também gostei de você Don... Jannet. – lembrei que ela não gostava de ser chamada de Dona.

-Eu gostaria muito de ajudá-lo, sabe?

Ajudar-me? Em que? Se ela falasse sobre a escola... Eu...

-Percebi que você não gosta de tocar nesse assunto. E vou respeitar. Mas pensei que talvez pudesse lhe ajudar em alguma coisa. Trabalhar na fazenda não é certo, não é bom para você.

Ela tinha razão. Nunca gostei de ficar ali no meio da terra e dos bichos. Arrependo-me muito de ter saído da escola para trabalhar. Mas minha família vem sempre em primeiro lugar, mesmo que não seja tão bem estruturada. Eu continuaria trabalhando para ajudá-la.

-Eu agradeço, mas, já lhe disse que não tem nada que você possa me ajudar.

-Ontem, no meu primeiro dia na escola, a diretora me disse que estavam precisando de um porteiro. O antigo aposentou-se e não havia ninguém para preencher a vaga dele. Não é grande coisa, eu sei. Mas talvez, ali, no meio dos alunos, do âmbito escolar, você aprenda alguma coisa ou pense em voltar. Sem contar que o salário fixo ajudará ainda mais na sua renda familiar.

Nunca me imaginei sendo porteiro. Nem sabia que eu tinha idade para trabalhar sério. Mas, mesmo que a escola fosse um trauma para mim, fiquei animado com a idéia de trabalhar lá.

-Eu... Eu vou pensar.

-Tudo bem. Só não demore. Alguém pode preencher a vaga. – ela sorriu ao dizer isso.

Papai estava voltando. O tempo deve ter passado muito rápido e eu nem percebi.

-Tenho que ir, Jannet. – beijei seu rosto e saí.

-Qualquer coisa, me procure na escola.

-Pode deixar.

Já estava na porta do carro quando Edgar chegou logo atrás de mim.

-Quem era aquela mulher conversando com você? – ele perguntou

-Não era ninguém. Só alguém que conheci na fila. Nada demais.

-Ela fez perguntas sobre a Valery?

-Não. Eu nem a conhecia, pai. Pode ficar tranquilo.

-Ótimo. Vamos embora.

Valery estava acordada, eu nem tinha percebido. Devo ter me concentrado demais na conversa com a Jannet. Ela agora estava fazendo alguns barulhos e apontando para meu... Nosso pai.

-Não, querida! Papai vai dirigir agora. – ele respondeu ao gesto dela.

Coloquei-a no banquinho de criança e prendi o cinto. Eu queria voltar logo para casa e pensar na proposta que eu recebera.

-

-Aonde vocês foram? – Marie estava à porta esperando por nós.

-No comércio. Faltavam coisas demais na dispensa. – Edgar respondeu.

-Mentirosos. Todos vocês.

-Bom dia, mãe.

-Não me venha com essa agora, Charles! Eu não estou de bom humor.

Pensei... Quando que ela estava de bom humor? Nunca. Minha mãe agora só andava emburrada, e piorou depois que Valery chegou.

Entreguei Valery ao meu pai e fui atrás de minha mãe. Ela tinha ido, como sempre, para seu quarto. Passavam mil ideias sobre o que ela tanto fazia lá. Depois eu as organizaria e descobriria exatamente o que era.

-Mãe... Posso falar com a senhora?

-Se for sobre essa... Essa menina... Não!

-Não é. É sobre... Um emprego.

Seu rosto mudou totalmente. Ela estava agora interessada no que eu tinha pra falar.

-Emprego? Que emprego?

-Na escola. Eu conheci uma pessoa que trabalha lá e ela me disse que tinha uma vaga de emprego.

-Vaga de...?

Eu sabia que ela não aceitaria. Que ela diria que era mixaria ou que eu merecia mais. Mas eu não tinha outra opção. Não conseguiria manter uma mentira, como dizer que era outro emprego, por tanto tempo.

-Porteiro.

-Quanto é o salário?

Eu definitivamente não esperava essa pergunta. Não agora, pelo menos.

-Não sei ainda. Mas ela me disse que serei bem pago. E seria bom. É um salário fixo... Trarei mais dinheiro para casa.

Ela parou por um segundo. Estava me analisando e pensando no que dizer.

-Por mim tanto faz. Você já pode cuidar da sua vida sozinho. Só seja responsável.

Inacreditável. Quem era aquele ser angelical no corpo da minha mãe?

-Obrigado, mãe! Muito obrigado.

-Ta, saia daqui! Quero ficar sozinha no meu quarto.

Saí imensamente feliz. Eu sabia que nada me impediria de ter esse emprego. No começo eu nem o queria, mas pensei melhor e será bom pra mim. Aliás, sinto falta da escola e Edgar deixava-me fazer tudo que eu quero.

Amanhã será um grande dia. Eu irei para a escola, para o meu primeiro emprego.

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