-Charles, tem alguém lá fora. Vá atender. Eu estou ocupada. – disse Marie
Eram 11H da manhã de um sábado. Eu ainda estava deitado, de pijamas. Na noite passada, fiquei acordado até tarde fazendo desenhos de Jennyfer em meu quarto.
Desci a escada, e vi que Edgar estava assistindo televisão. Geralmente, ele saía de casa cedo para beber ou fazer qualquer outra coisa do tipo. Ele tem mudado desde que Valery apareceu para nós.
Ela era, realmente, uma benção para todos, menos para minha mãe que, até agora, não teve nenhum contato com ela. Era como se não tivesse feito nenhuma diferença em sua vida por Valery estar morando conosco.
-Já vai. – gritei para que a pessoa lá fora parasse de tocar a campainha.
Tropecei no desnível do chão, e me apoiei no trinco, abrindo a porta.
-Oi – disse Jennyfer.
-Ah, oi, Jennyfer. – eu estava meio inclinado, quase no chão, aos seus pés – Desculpe, eu caí.
Ela deu um riso.
-Tudo bem.
Sorri em resposta.
-Mas, o que a trouxe aqui? Como...
-Eu perguntei pra D. Jannet onde você morava, se é isso que você ia perguntar e, eu queria vir falar com você!
Falar comigo? Senti uma pontada de felicidade dentro de mim. Jennyfer viera até aqui só pra falar comigo.
-Ah sim, claro. – olhei a casa pela brecha da porta e vi que estava arrumada – quer entrar? – “que pergunta idiota” pensei.
Jennyfer foi entrando, e eu olhei para o céu, agradecendo seja lá pra quem fosse.
Meu pai continuava assistindo TV ali perto da sala onde estávamos. Minha mãe estava na cozinha, imagino que fazendo o almoço.
-Você se importa de ficar aqui? Eu preciso me arrumar... Acabei de acordar. –sorri, colocando a mão atrás da cabeça.
-Não, não tem problema. – afirmou Jennyfer.
Levei-a para a sala aonde meu pai se encontrava. Falei que ela era uma amiga minha da escola e pedi, bem no ouvido dele para que ela não ouvisse, que ele não falasse nada que a assustasse. Meu pai costumava fazer isso quando eu, milagrosamente, levava algum amigo pra casa.
Ela sentou-se no sofá ao seu lado e ficou observando o ambiente. Ela não parecia sem graça, com vergonha, como eu estaria se fosse ela. Senti-me péssimo por deixá-la lá sozinha, mas eu tinha que tomar banho, escovar os dentes e qualquer coisa que me fizesse ficar mais apresentável, não para meus pais, mas para ela.
Subi as escadas tão rapidamente que acho que bati o recorde de degraus subidos em um pulo. Uma antiga brincadeira minha com Clair.
Em um segundo, eu já estava no banheiro. Tentei não cantar, Jennyfer poderia rir de mim. No silêncio, parei de me enxaguar para tentar ouvir alguma coisa lá embaixo.
Passei alguns segundos assim e... Nada.
Se eu fosse fazer uma lista dos 10 melhores banhos que eu já tomei na minha vida, esse estaria, com muita certeza, em primeiro lugar. Minha pele já estava vermelha de tanto que eu esfregava o sabonete e, eu comecei a acreditar naquela história que o cabelo cai se você passar shampoo e condicionador muitas vezes em um dia. Eu contei, pelo menos, 3 vezes. Fiquei com medo de que fosse verdade.
Escovei os dentes, fiz a barba bem devagar para que não deixasse machucados, penteei o cabelo, procurei alguma roupa que não estivesse suja e me calcei.
Fui saindo do quarto e fiquei parado perto da escada, tentando ouvir o que eles conversavam. De início, Edgar deve ter feito as perguntas mais clichês possíveis: “Qual o seu nome?”, “Quantos anos você tem?”, “Você é amiga do Charles desde quando?”, “Vocês são só amigos mesmo ou...?” e, a pior pergunta possível, “Você está estudando muito? Já sabe que curso quer fazer na faculdade?”. Eu, particularmente, daria um tiro em casa pessoa que me fizesse essa pergunta, se eu estivesse estudando.
A única coisa que eu consegui ouvir, foi Edgar falando, mais uma vez, sobre Richard Walker. Ele não cansava de contar a história de que ele é um ladrão e que deveria estar preso e não nas manchetes de jornal.
Jennyfer não parecia interessada – ficar interessado nisso, é impossível – pois ela só concordava com rápidos “Hm”. Resolvi descer logo e livrá-la daquilo.
Bem no final da escada, quase no campo de visão de Jennyfer e Edgar, parei e voltei pro meu quarto, mais precisamente pro banheiro.
Esqueci de passar o perfume.
-
-Ah, Charles. Você demorou meu filho. – disse Edgar, afundado em sua poltrona – eu estava aqui conversando com sua amiga... – ele olhou para Jennyfer e esperou que ela dissesse seu nome –... Jennyfer que, aliás, é muito simpática.
Estranhei o comportamento de Edgar, estranhei sua voz, estranhei suas palavras, estranhei-o todo. Há tempos que ele não gosta de outra pessoa, que não seja ele mesmo.
E, às vezes, nem isso.
Nesse momento, estou imaginando de onde ele tirou essa idéia de que Jennyfer seja simpática – não que eu não a ache simpática. Ela é muito mais que isso – mas, se eu estou certo do que eu ouvi, Jennyfer não fez mais nada do que responder às perguntas diretas de Edgar e concordar com “Hm”. Meu pai deve estar de bom humor ou pensando que Jennyfer é uma chance para mim.
Edgar desde cedo quis que eu namorasse alguém.
Jennyfer mostrou-se sem graça. Era de se esperar.
-É... Eu sei pai. – eu estava igualmente sem graça – então, vamos sair? – perguntei para Jennyfer. Na verdade, eu não sabia para onde iríamos. Eu não sabia nem o que ela tinha ido fazer em minha casa, mas seja lá o que fosse eu iria gostar. Imaginei que ela tinha pensado em alguma coisa para fazermos juntos.
-Ah sim, claro. – Jennyfer respondeu de supetão. Ela parecia estar louca para sair daquele sofá e da companhia de meu pai. Ele conseguia ser realmente muito chato com suas histórias.
-Vocês não vão ficar pro almoço? – disse Edgar.
-Eu... Eu não quero atrapalhar. – Jennyfer estava mais vermelha do que nunca.
-Claro que não, minha filha. Pode ficar. Será uma honra. – Edgar estava, com certeza, muito diferente – Marie?
-Eu estou terminando, se você não se importa de esperar. – a voz de Marie emanou do fundo da cozinha.
-Você não quer ir lá pro meu quarto? – tentei perguntar isso sem que parecesse que eu, talvez, tivesse outros interesses além de simplesmente mudar o ambiente para podermos conversar.
-Pode ser. – ela respondeu, levantando-se. Eu podia ouvir um grito de “Aleluia” em seu pensamento. – com licença.
-Pois não. – Edgar fez um gesto com a mão, indicando que ela poderia sair.
Eu não sabia muito bem se deveria ir na frente, esperá-la ou dar minha mão a ela. Bem, eu não tinha muito tempo pra pensar nisso então, desastrosamente, peguei sua mão e a levei para a escada.
-Ch...Cha...
-Ah, você tem uma irmãzinha? – perguntou Jennyfer.
Valery estava diante de nós, segurando meu caderno de desenhos. Como ela pegou isso? Eu o deixei no meu... No nosso quarto. Esqueci que minhas coisas não estão mais tão seguras com Valery lá.
Ela tentava falar meu nome mas nunca passava da primeira sílaba.
-É... Minha irmã.
-Qual o seu nome, bebêzinha linda?
-Ela não sabe fa...
-Eu sei, só estou tentando brincar com a criança, Charles. – Jennyfer me fitou com seus olhos verdes.
Eu sou muito brincalhão, principalmente com Valery, mas coisas do tipo “Quantos aninhos você tem? Me mostra com os dedinhos, mostra”, “Cadê o Charles? Achou”, “Cadê o au-au? A neném tem medo do au-au?”, simplesmente, não eram pra mim.
-Desculpe. – tentei me redimir. Parece que não tive sucesso nisso. – E o nome dela é Valery...
-Lindo nome, Valery! Seu nome é muito lindo, bebê.
-Cha...Char... – Valery erguia seus braços, em sinal de que queria que eu a carregasse.
Abaixei-me e peguei em sua cintura. Ela fez um gesto relutante. Ela queria mesmo era ficar no chão.
-Acho que ela quer entregar isso para você, Charles. – disso Jennyfer, referindo-se ao caderno nas mãos de Valery.
Peguei-o e, rapidamente, pensei em guardá-lo. Definitivamente, eu não queria ver minha cara caso Jennyfer visse meus desenhos... Seus desenhos.
-Posso ver? – Jennyfer perguntou, apontando pro caderno que estava indo direto pro meu bolso de trás.
Valery deu uma risada feliz. Até parece que ela sabia o que ela tinha feito comigo e achara graça disso.
Se ela fosse alguns anos mais velha, não duvidaria muito disso e, teria volta.
-Não é nada... Só um caderno... – Jennyfer fez um rápido e desanimado “Ah!”. – Mas... Pode ver. Claro!
Comecei a rezar mentalmente.
-Você que os fez?
O que eu esperava era “o que o meu rosto está fazendo em quase todas as folhas do caderno?”. Mas isso, parecia bem melhor.
-Sim... Eu deveria ter perguntando pra você se...
-Estão lindos. Muito lindos mesmo. – ela folheava as folhas devagar - Sabe, eu não sou muito boa em desenhos, mas admiro quem faz. Principalmente quem desenha paisagens e coisas da natureza.
Paisagens? Olhei para Valery, esperando que ela entendesse a minha cara de “Você perdeu!”. Jennyfer só havia visto os primeiros desenhos. Nenhum desenho dela.
-Sim, eu que fiz. Obrigado.
Jennyfer me olhava com uma cara animada. A cada desenho que ela via, ela olhava para minhas mãos como se estivesse imaginando “Como é que ele faz isso?”. Sentia-me ainda mais animado que ela por saber que ela estava gostando.
-Charles, venha almoçar com a sua amiga. Traga Valery também.
-Vamos? – convidei Jennyfer.
Nos sentamos à mesa. Marie não parecia muito feliz. Ela colocou os pratos na mesa e não se sentou no seu lugar de sempre.
-Você não vai comer com a gente, mãe?
-Não. Eu já almocei. Tenho mais o que fazer. – ela respondeu rispidamente.
-Tudo bem. Ah, mãe, essa é Jennyfer. Esqueci de lhe apresentar... É uma amiga minha.
-Prazer. – disse Marie, retirando-se para o seu quarto.
Jennyfer ficou calada. Ela mal abrira a boca para responder ao comprimento, quando Marie saiu.
Tentando acabar com o clima estranho que minha mãe deixou, comecei a me servir.
Valery estava na cadeirinha de criança, próxima à mesa. Edgar na ponta e eu na lateral, do lado de Jennyfer. No começo ela esperou que meu pai se servisse. Ele olhou para mim e eu entendi que ele estava querendo dizer que eu devia serví-la. Enquanto comíamos, Valery se esforçava para falar nossos nomes, mas, como sempre, só saía a primeira sílaba. Jennyfer parecia impressionada com o comportamento de Valery. Ela ficava em silêncio na mesa e comia tudo que meu pai lhe dava, sem precisar forçá-la. Valery não chorava, não reclamava e nem parecia estar com preguiça. Muito pelo contrário, Valery estava sempre cheia de energia. Isso chamou a atenção de Jennyfer, porque ela não tirava o olho da minha irmã.
-
-Aonde é o banheiro? – perguntou Jennyfer.
Tínhamos acabado de almoçar. Jennyfer me ajudara a lavar as louças enquanto Edgar descansava em sua poltrona juntamente à Valery.
-Na porta à esquerda, do lado da escada. – respondi.
-Obrigada.
Percebi que Jennyfer havia comido bastante no almoço mas, mesmo assim, eu não vou ao banheiro assim tão rápido. Mas tudo bem. Talvez ela só queira se ver no espelho ou algo do tipo.
Passaram-se alguns minutos e ela continuava lá.
Pensei em ir lá bater na porta, perguntar se estava tudo bem mas, antes que eu fizesse alguma coisa, ela já estava saindo.
-Eu precisava... Retocar a maquiagem. – ela estava de cabeça baixa e mexendo no canto do olho enquanto dizia isso.
-Tudo bem. – respondi.
-Então, o que vamos fazer?
-Ah, não sei... Eu pensei que talvez pudéssemos andar um pouco. Tem um lago aqui perto, muito bonito, se você quiser ver...
-Ótimo.
-Eu só preciso fazer uma coisa. Já volto
Corri até o banheiro e escovei os dentes. Confesso que tinha esperanças de que fosse acontecer alguma coisa e, caso acontecesse, eu devia estar preparado, não é?
Quando voltei, ela estava com Valery no colo.
-Podemos levá-la? – perguntou Jennyfer
Fiquei um pouco desanimado com a ideia. Eu tinha pensando em sairmos só nós dois mas, se bem que Valery não atrapalharia em nada.
Será que aquela história de que mulheres gostam de homens com crianças é verdade?
-Claro. Só vou avisar meu pais.
Andei até a mesa onde meu pai estava e gritei para que ele e Marie ouvissem:
-Pai, mãe. Vou sair com a Jennyfer, nós vamos para o lago aqui perto. Estou levando a Valery.
-Não demore. – Marie ordenou de longe.
-Tudo bem. – respondi. – Então – olhei para Jennyfer – vamos?
Ela andou até a porta com Valery nos braços.
-Ah e, não esqueça de levar seu caderno e um lápis. Você vai desenhar pra mim, Charles. Entenda isso como uma ordem.
-Tudo bem, mãe!
-Respeito, menino! – Jannyfer me deu um tapinha nas costas.
-Desculpa.
Nós dois rimos.
Pegamos duas bicicletas e andamos até sairmos da estrada e chegarmos um pouco na cidade. Valery foi no banquinho para bebê que tinha na minha bicicleta. Quando chegamos lá, descemos e continuamos a pé. Eu não sei exatamente para onde estávamos indo, mas não me importava também. Talvez a praça, não sei.
As pessoas olhavam para a gente, talvez comentando sobre eu, filho do falido Sr. Parker, estar andando com uma garota. Era só mais uma desculpa para fofocarem.
Enquanto andávamos pela calçada, eu arrumava Valery em meu colo, ela estava ficando cada vez mais pesada.
E a minha cabeça ia se inundando de perguntas. Por que ela foi falar comigo? O que ela queria? Será que ela também gosta de mim?
Está bem, eu tenho que parar de ser tão otimista assim.
-Então, como foi o trabalho hoje?
-Hoje é sábado. Eu não trabalho aos sábados.
-Ah, é mesmo...
Novamente, ela sorriu.
-Desculpe Charles. Eu sou péssima em puxar assunto com uma pessoa. Eu só fui até a sua casa por que... Eu queria te conhecer e te agradecer pelo que fez ontem.
Pelo o que vi, ela estava tão envergonhada e sem saber o que falar ou fazer quanto eu estava.
-Relaxa! Eu também não sou dos melhores.
-Bem que Valery poderia nos ajudar, não é?
-HAHA! É mesmo.
Não, ela não podia. Estávamos, realmente, bestas demais e totalmente sem assunto. Como é que um bebê nos ajudaria em uma conversa? Achei isso idiota, mas achei melhor não falar e simplesmente concordar.
-Que tal a gente se apresentar melhor? Nós nem nos conhecemos direito. – sugeri.
-Claro. Você começa!
-Bom, meu nome é Charles Parker! Tenho 16 anos, uma irmã chamada Valery, moro com meus pais e trabalho como porteiro em uma escola. Pronto. Nada de interessante. Agora você!
-Sem essa! Eu já sei disso tudo, Charles. Fale coisas como... Músicas, filmes, sonhos, gostos... Sei lá... Não sou a única que tem que pensar aqui.
-Está bem. Eu não ouço muita música porque não tenho meios para isso, mas, gosto de um rock. Filmes eu vejo bastante, principalmente terror e romances! Bem contraditório, não é? – Jennyfer estava com uma cara de confusa – Sonhos... Posso pular essa parte?
-Ah, não... Por que tu pularias?
-Eu só não gosto de falar sobre isso, sabe?
-Por favor. Eu quero conhecer você, Charles. Por favor.
-Minha cor favorita é preto, eu gosto de chocolate mais do que qualquer outra coisa, odeio trabalhar na terra, minha matéria favorita quando eu estudava era História, não sei dançar, não sei brincar com crianças e não sei o que fazer do meu futuro.
-Está bem, eu entendi. Não vou mais perguntar. Desculpe.
Essa é a hora em que você coloca as mãos na cabeça e pensa “Que porra que eu fiz?” Eu devia ter, sei lá, enrolado-a, contado qualquer sonho besta. Não precisava dar a desculpa de que eu não gosto de falar sobre isso. E agora? Será que ela está com raiva de mim?
Por não saber o que fazer, decidi contar logo, mesmo que, pra mim, seja difícil falar com alguém sobre minhas maiores vontades.
Eu sempre as guardei somente para mim e, às vezes, tentava escondê-las.
Eu sabia que elas nunca se realizariam, então, era melhor não sofrer desejando-as.
-Meu sonho era poder ter Clair de volta, era não ter sofrido tanto na vida, ter minha família unida, ser feliz, estudar, conhecer o mundo, desenhar tudo o que eu visse, mostrar pra todos, através dos meus desenhos, que o mundo ainda tem esperanças, queria poder ajudar quem eu amo, resolver os problemas delas, erguer a mão quando precisarem, eu quero amar alguém com todas as minhas forças, fazer uma pessoa feliz ao máximo e ficar feliz por isso, quero deixar alguma coisa aqui, nesta terra, quando eu partir...Eu queria mostrar para todos o que sinto a tanto tempo mas não mostrei por medo de parecer um louco.
Parei de falar e imaginei como seria a minha reação se alguém que eu mal conheço me falasse todas essas loucuras.
Acho que eu correria.
-Você deve estar me achado um louco...
-Estou mesmo, mas... Pessoas normais não são interessantes.
Ficamos em silêncio, um observando o outro.
Eu nunca tinha reparado no quanto seus olhos verdes são bonitos.
Estávamos tão próximos, que eu podia sentir o calor da sua respiração em mim.
-Char...
Se eu tinha alguma dúvida de que Valery não tentaria mais estragar alguma coisa entre eu e Jennyfer, estava totalmente enganado.
-Acho que ela quer ir ali ao mercado. – disse Jennyfer, afastando-se de mim.
Valery estava apontando freneticamente para um mercadinho da esquina. Na porta, havia bonecas. Isso deve ter chamado a sua atenção.
-Não, Valery! Agora não. Papai já comprou bastantes bonecas para você. – falei apontando o dedo indicador para ela. Meus pais faziam isso quando brigavam comigo.
Já era de se esperar que ela não fosse entender o que eu disse. Ela continuava mexendo seus braços e parecia que não ia parar até que fôssemos à loja.
-Vamos lá, Charles. Nós não precisamos comprar nada, ela pode ir só ver, não pode?
-Está bem, vamos.
Entramos no mercado, chamado “Josef’s Market”. Não era grande coisa, tinha só um caixa que era um cara gordo e mal humorado. A pintura da parede estava suja e o chão parecia que não via uma vassoura há muito tempo. Eu tinha que ter cuidado para que Valery não tocasse em nada. Tinha medo do que aquela sujeira poderia causar nela.
-Pronto, já olhamos as bonecas, Valery. Agora vamos, por favor! – falei com ela, esperando que estivesse sendo compreendido.
-Você não tem mesmo paciência com sua irmã, não é?
“Não, não é isso! Eu a amo. É só que... eu queria ficar somente com você! Por que você não entende logo isso, mulher” – quem sabe ela tenha ouvido, porque eu gritava isso dentro de minha cabeça. E quando eu gritava, mesmo que em pensamento, era alto demais.
-Você quer um lanchinho, Valery? – disse Jennyfer para Valery, que continuava em meu colo, com uma vozinha fina.
Jennyfer pegou um pacote de biscoitos e um suco de caixinha. Eu disse que ia pagar, mas ela não deixou. Fomos até o caixa, que tinha o nome “Josef” escrito com pincel em sua camisa branca.
Ele não disse nada. Pegou nossas compras e verificou os preços. Jennyfer estava retirando o dinheiro da bolsa, quando uma mulher, com uma criança no colo, aproximou-se.
-Senhor, você não pode me ajudar aqui um pouquinho, por favor? Eu estou necessitada. Meu filho está doente. Por favor.
Pelo o que vi, ela estava, obviamente, falando com o Josef. Ele fechou a cara mais ainda – eu achava que isso era impossível – e respondeu:
-Eu já lhe disse que não tenho! Saia daqui e não volte mais! Vamos, saia!
A mulher saiu devagar, arrastando seus pés no chão imundo. A criança em seu colo me olhava com uns olhos tristes. Imaginava o quanto ela deve ter sofrido e ainda sofre.
-Desculpe. Esta vagabunda fica me infernizando aqui quase todos os dias, pedindo dinheiro. Não aguento mais! Qualquer dia desses, ainda chamo a polícia. Não suporto esse tipo de gente. Você não concorda comigo, moça? Esses urubus! Ficam se aproveitando dos outros.
-Não! Claro que não. Que ridículo. – Jennyfer expressava nojo do homem à sua frente - Olha, eu só quero comprar minhas coisas e ir embora, se não se importa.
-Tudo bem, tudo bem.
Jennyfer chegou perto de mim e disse bem baixo.
-Que horrível! Lembre-me de nunca mais vir aqui nesse mercado, Charles.
-Pode deixar. – disse – Jennyfer, você pode segurar Valery um pouco? Vou pegar um refrigerante pra mim.
-Claro
-Você quer mais alguma coisa?
-Não, obrigada.
Deparei-me com um pôster enorme da Coca-Cola bem na porta da geladeira. Era uma mulher de cabelos longos e pretos, com a barriga aparecendo, tomando uma daquelas garrafas de vidro da Coca-Cola. Abri a geladeira e, no meio de todas aquelas latinhas de Coca, achei a que eu queria: Sprite.
Andei lentamente até o caixa. Estava observando os 2 ou 3 corredores do mercado. Eram tão estreitos e sem muita opção de mercadoria. Virei meu rosto pro outro lado e vi o motivo de eu ter entrado ali: as bonecas na entrada. Já bem próximo ao caixa, vi que tinha mais uma pessoa junto à Jennyfer, Valery e o Josef. Era a mulher que estava pedindo ajuda ainda agora.
-Muito obrigada, Senhor Josef. Que Deus lhe pague. Muito obrigada.
-De nada, minha senhora. Vá com Deus.
A mulher estava saindo com duas sacolas em cada mão e seu filho com os bolsos cheios de chicletes e chocolates. Estranhei aquilo. Será que ela conseguiu dinheiro? Não, acho difícil. Então, por que o Josef mudara de ideia tão rapidamente?
Pagamos a conta e, pelo menos o refrigerante eu pude pagar. Abri a porta para a saída, deixando Jennyfer e Valery passarem.
-O que eu perdi? – perguntei, com o canudo em minha boca, tomando a Sprite.
-O quê?
-O que foi aquilo? Ele deu todas aquelas coisas para a mulher?
-Eu também não entendi. Meu celular tocou, fui atender e deixei Valery na bancada. Quando voltei, o Josef estava sorrindo feliz para Valery e seus olhos brilhavam. Então, ele chamou a mulher e disse que ela podia levar o que quisesse. Daí você chegou.
-Que estranho. – Olhei para Valery. Ela estava com o seu sorriso de sempre no rosto. Ela era tão linda. Senti vontade de abraçá-la. Às vezes, eu pensava que a minha constante e infinita vontade de abraçar Clair novamente, era passada para Valery toda vez que eu olhava seu sorriso contagiante.
-É... Mas, mudando de assunto. Meu estava me ligando. Disse para eu ir para a casa da minha tia, é bem aqui perto, posso ir andando.
-Vou com você.
-Não precisa, fica tranquilo.
-Tudo bem, mas você vai ficar me devendo dizer seus gostos, sonhos e tudo mais.
-E você acha que eu não te dizer? Sou de palavra! Ah e, esqueci de te dizer... Eu não vou mais estudar de manhã. Meu pai disse que se eu estudar de tarde, ele vai poder me pegar todos os dias na escola, sem ter alguma exceção que eu precise ir de ônibus e... Você já sabe. Meu pai quase teve um ataque do coração quando contei pra ele do assalto.
-Mas...
-Relaxa, nós ainda vamos nos ver, mas agora eu tenho que ir.
Jennyfer me beijou no rosto e eu a abracei forte. Esse era mais um momento que eu queria poder quebrar o relógio e, assim, parar o tempo.
-Tchau Valery. Cuida do seu irmãozinho. – ela de abaixou e beijou a bochecha de Valery.
-Tchau.
-
Cheguei em casa e ainda eram 4 horas da tarde. Não vi Edgar na sala e nem Marie na cozinha ou no seu quarto. Fui direto para o meu quarto, coloquei Valery em seu berço e deitei-me em minha cama. Fechei os olhos por uns minutos, tentando relaxar.
Logo que os fechei, vieram desenhos em minha cabeça. Peguei meu caderno e os passei para as folhas.
Jennyfer e Valery, Jennyfer em uma bela paisagem com os cabelos soltos, Jennyfer beijando o rosto de Valery... Jennyfer beijando minha boca...
Depois desse desenho, os outros só foram melhorando. Pra mim.
Quando vi, já eram quase 7 horas da noite. Desci, fiz alguma coisa para eu comer e voltei pro quarto. Valery estava dormindo.
Ouvi uma batida na porta.
Era Marie.
-Pode entrar, mãe.
-Com licença. – mamãe já estava de pijamas. Imagino que ela já tenha lavado as louças e rezado. Devia estar cansada para ir dormir tão cedo.
-Sem problemas, mãe! – tentei ser bom com ela. Ou isso, ou sua pseudo simpatia acabaria tão rápido quanto surgiu.
-Como foi seu dia hoje, meu filho? Você está namorando aquela garota?
-Foi bom, mãe! E bem que eu queria namorar com ela mas... Não deu ainda.
-Por quê? Ela não gosta de você?
-Não sei, mãe. Ela não se interessou ou só me quer como amigo, não sei! Nós ainda nem nos conhecemos direito.
-Que besteira! Você é lindo, Charles! Qualquer garota gostaria de estar no lugar dela. Pertinho de você.
Eu estava rindo por dentro.
-Obrigado, mãe! Mas não é assim que funciona... E... Por que você está falando disso?
-Nada... Eu só queria conversar um pouco com você. Tenho que participar da sua vida, não é?
-Sim...
-Então, boa noite... Vou dormir cedo hoje.
-Boa noite, mãe!
-Durma com Deus!
-Você também, mãe.
Ela estava fechando a porta, quando falei:
-Aonde está o papai?
-Ele saiu logo depois que você. Disse que alguém tinha que trabalhar na colheita agora que você é o porteiro da escola e não tem tempo pra isso. Desde que saiu, ainda não voltou.
-Tem certeza? Meu pai trabalhando na terra?
-Milagres acontecem, meu filho. Milagres acontecem! Boa noite.
-Boa noite. E mãe...
-Sim, meu filho.
-Foi bom conversar com você. Faça isso mais vezes!
Mesmo no escuro, pude ver sua expressão de plena felicidade.
-Farei sempre que puder. Eu te amo!
-Eu também te amo.
Marie saiu do quarto e fechou a porta. Fechei os olhos e me concentrei para agradecer a Deus por tudo que me estava acontecendo. Era como se tudo estivesse dando certo. Nenhum problema, nenhuma complicação... Nada.
Depois que Valery apareceu, minha vida só tem melhorado.
Uma luz forte no meio da escuridão que estava meu quarto, me fez abrir os olhos. Meu celular estava tocando.
Peguei-o e vi que tinha uma mensagem de um número desconhecido.
“Hey, Charles. Sou eu, Jennyfer. Tá td bem c vc? Gostei mto d termos saído hj! Temos q repetir + vzs! Mas nem sempre levar Valery... Eu fikei pensando sobre o que ela fez hj... foi bem estranho, vc ñ acha? E eu vi bem + do q desenhos de paisagens em seu caderno nakela hr. Bem, eu tenho q dormir. Boa noite! E, o q eu gosto? D 1 menino. Meu maior sonho? Fikr c ele! Espero q vc entenda! Ñ tô + te devendo respostas.
PS: peguei seu num. Com seu pai hj na sua ksa!
Bjs :*”
Por essa eu não esperava. Eu nem sabia o que pensar. Queria poder ir até a sua casa, se eu soubesse aonde é, e abraçá-la... Beijá-la, porque, agora eu sei que, ela gostaria de fazer o mesmo comigo. E não me importava se ela viu os desenhos... Ela gostou. Era bom demais pra ser verdade. Mas por que tanto interesse assim em Valery? E “Eu fikei pensando sobre o q ela fez hj” o que ela fez? Não entendi. Pensarei nisso mais tarde. Agora, eu só consigo pensar em dar vida a todas as coisas que eu me imaginei fazendo com Jennyfer em meus desenhos.
Se eu tivesse créditos para respondê-la, simplesmente diria:
”Eu te amo!” Pra mim, isso basta.
Deitei novamente na cama e dormi.
Foi a melhor noite da minha vida.